Advogada criminalista, trabalhista e previdenciária, pós-graduada em Criminologia, Direito Processual Penal e Direito Penal, também em Direito do Trabalho e Previdenciário, além de pós-graduanda em Direito Tribunal do Júri, Dra. Luiza Verdi mantém escritórios em Piracaia e Caraguatatuba, em São Paulo, advoga em todo o Brasil e atende também clientes no exterior. Reconhecida pela defesa dos direitos e garantias individuais e pela contribuição em debates sobre justiça social e direitos humanos, traz a esta edição a lente da criminologia, a que pergunta não o que punir, mas por que o crime acontece.
Compartilhe essa publicação:

Dra. Luiza Verdi | Fotografia: Revista Angel
A técnica penal, diz Luiza Verdi, “por si só, foca no ‘o quê’ e no ‘como’ do crime”. Ela foi estudar uma terceira pergunta, que o Código não faz. “A criminologia, por outro lado, me leva a questionar o ‘porquê’. Por que aquele indivíduo cometeu aquele ato? Quais são as estruturas sociais, econômicas, psicológicas que o levaram a essa situação?” Não é justificar o crime, adverte, “mas entender suas raízes complexas”. “Essa lente me permite enxergar além do réu, além do processo. Vejo a pessoa por trás da acusação, com sua história, suas fragilidades, suas oportunidades perdidas.” Na prática: contextualizar o caso, buscar alternativas à prisão, defender “a ressocialização efetiva, e não apenas a punição cega”.
Quem chega até ela quase sempre está num cenário “de profunda vulnerabilidade e incerteza”, diante de uma máquina estatal “imponente e complexa”. Mas o perfil mudou. “Se antes havia uma percepção de que o advogado criminalista era procurado apenas por quem já estava ‘envolvido’ com o crime, hoje há uma busca maior por prevenção e por orientação em situações que podem, inadvertidamente, levar a problemas legais.” A digitalização criou delitos novos; a polarização e a criminalização de condutas ampliaram quem pode, de repente, se ver numa situação criminal, “independentemente de sua classe social ou histórico”. Daí um ponto que quase todo mundo erra.
PUBLICIDADE
“O que elas mais acham que sabem, mas não sabem de fato, é o direito de permanecer em silêncio e a importância de só falar na presença de um advogado.” Por nervosismo, ou por acreditar que “não devem nada”, falam demais, se contradizem e fornecem informações que podem ser usadas contra elas. É dessa cadeira que ela discorda do debate público sobre crime. “A ênfase exclusiva na punição – mais prisão, penas mais duras – não funciona como se espera para diminuir o crime.” A prova está à vista: prisões superlotadas, muitas vezes em condições desumanas, e um índice de reincidência altíssimo. “Isso demonstra que o sistema atual, focado apenas na retribuição, falha em seu objetivo de ressocialização e, consequentemente, na prevenção de novos crimes.”
“O que de fato diminui o crime passa por políticas públicas eficazes em educação, saúde, moradia, geração de emprego e renda, e acesso à justiça.” E por “um sistema prisional que realmente ressocialize, oferecendo oportunidades de estudo e trabalho, e não apenas um ‘depósito’ de pessoas”. No fundo, “a redução das desigualdades sociais que são o verdadeiro berço da criminalidade”. É da mesma vulnerabilidade que ela fala ao cruzar suas duas áreas. Entre penal e trabalhista, diz, “há uma conexão profunda e um fio condutor que os une: a vulnerabilidade do indivíduo diante de uma estrutura de poder muito maior”. No crime, o cidadão contra o Estado; no trabalho, o empregado contra quem detém o poder econômico e jurídico.
Nos dois, a desinformação é fator comum e o medo de retaliação — perder o emprego, ser preso — é “um elemento paralisante”. Seu papel, diz, é ser “a voz e o escudo para esses indivíduos, equilibrando a balança e garantindo que seus direitos sejam ouvidos e respeitados, independentemente do poder da parte contrária”.
Daqui a dez anos, o que mais a preocupa é “a persistência e o aprofundamento do populismo penal”: “a tendência de buscar soluções simplistas e punitivistas para problemas complexos”, a criminalização de condutas sem a devida reflexão sobre suas causas sociais, “a precarização das garantias individuais em nome de uma suposta ‘segurança’”. O que a mantém otimista é a outra ponta: a advocacia combativa, a criminologia crítica ganhando espaço e “a formação de novas gerações de juristas mais engajados e com uma visão mais humanizada do direito penal”. Isso, diz, “me faz acreditar que, mesmo em meio aos desafios, a busca por uma justiça mais equitativa e eficaz não será abandonada”.
PUBLICIDADE
O que a ocupa não é a punição, é o que vem antes dela. “Como o sistema de justiça criminal pode ser mais preventivo do que apenas reativo?” Em vez de discutir a pena e o crime já cometido, ela quer saber como evitar que as pessoas cheguem ao sistema penal: quais falhas de política pública levam à criminalidade, como investir em educação, saúde mental e oportunidades “para desconstruir o caminho do crime”. “Acredito que essa é a chave para um futuro mais seguro e justo, e não apenas a resposta à criminalidade já instalada.” A punição, diz Luiza, é uma parte do sistema. “Mas não pode ser a única resposta.”
Gostou do conteúdo? Compartilhe: