Advogada inscrita na OAB/SP, especialista em Direito do Trabalho, Direito do Consumidor e Direito Sistêmico, Dra. Rosaní Paschoal formou-se pela SBDSIS em “Pensamento Sistêmico e Constelações Familiares com ênfase no Direito” e foi vice-presidente da Comissão de Direito Sistêmico da OAB de Santos nas gestões de 2019 a 2024. Integrante do grupo Trabalhista Sistêmico, advoga na Baixada Santista e, on-line, em todo o Brasil, e é coautora de “Consciência Sistêmica — Integração de Saberes: Saúde, Direito e Educação”. Traz a esta edição não uma técnica nova, mas a história de uma virada de postura dentro da própria advocacia.
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Dra. Rosaní Paschoal | Fotografia: Revista Angel
Há inventários que não terminam nunca, e não é por falta de documento. Rosaní Paschoal aprendeu a reconhecer o que os sustenta: “aquele processo se torna, sem que ninguém perceba, o único elo que ainda mantém aquela família unida, mesmo que seja pelas desavenças”. “Enquanto o processo existe, a família continua, de alguma forma, ligada.” Reconhecer isso “não muda o que cabe ao Direito resolver, mas muda a forma como conduzo a negociação”. É esse o ganho que ela atribui ao olhar sistêmico, e o define sem jargão: “não significa olhar menos para o Direito. Significa olhar melhor para as pessoas envolvidas naquele conflito.” O mesmo padrão aparece quando um acordo não fecha porque uma das partes precisa de reconhecimento e “insiste em posições que, tecnicamente, poderiam ser resolvidas com facilidade”.
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A técnica sozinha não explica o impasse — e não é por isso que ela é dispensada: “a técnica jurídica continua sendo a base da minha atuação”, avisa. O que Rosaní descobriu, depois de alguns anos advogando, foi que “muitos dos maiores desafios da profissão não eram propriamente jurídicos. Eram desafios de postura”. Clientes esperando que o advogado resolvesse todos os problemas da vida deles. Colegas tratando o advogado da parte contrária como inimigo pessoal. Profissionais adoecendo porque carregavam conflitos que não lhes pertenciam. “Minha transformação se deu quando conheci o Direito Sistêmico e quando passei a questionar a forma como eu exercia a advocacia.”
Daí a frase que organiza o resto: “Advogado não salva. Advogado representa.” “Dormia com o processo”, diz sobre o começo, quando acreditava que carregar o sofrimento do cliente era prova de compromisso. “A visão sistêmica me ajudou a compreender que ajudar não é carregar. Ajudar é estar presente, oferecer conhecimento técnico, orientar com responsabilidade e caminhar ao lado do cliente, sem ocupar o lugar dele.” A quem se consome pelas causas alheias, lembra que “cuidar de si não é um ato de egoísmo. É um compromisso com a qualidade da própria advocacia”. A virada teve efeitos concretos, e ela aprendeu tarde: “e aprendi perdendo”. Cobrava menos do que devia e “tratava a cobrança como assunto secundário diante do sofrimento da pessoa” — e, em mais de um caso, não recebeu.
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“Hoje entendo que aquilo não era generosidade. Era eu não ocupando o meu lugar, o de uma profissional cujo trabalho técnico tem valor e precisa ser reconhecido como tal, inclusive por mim mesma.” Quando passou a cobrar o que entendia justo, parou de chegar o cliente que só pedia desconto ou reclamava antes de entender o trabalho. “Quando eu mesma duvidava do meu valor, atraía quem também duvidava dele.” E explica: “O cliente também responde à forma como o profissional se posiciona.” A pergunta que reorganizou sua advocacia: “Qual é, afinal, o verdadeiro lugar do advogado?” “Curiosamente, foi quando deixei de tentar salvar as pessoas que passei a conseguir ajudá-las melhor.”
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