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Quem está formando quem vai defender você?

DRA. JULIANA MAGATI

Advogada na área cível, diretora e professora de uma faculdade de Direito no ABC paulista e criadora do método Direito Colorido, Juliana Magati Aguiar transita todos os dias entre o escritório e a sala de aula. É dessa dupla posição, de quem exerce a advocacia e de quem forma quem vai exercê-la, que ela traz a esta edição um olhar importante na revista: o de dentro do ensino jurídico.

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Dra. Juliana Magati, professora e criadora do método Direito Colorido, entrevistada da Revista Angel

Dra. Juliana Magati | Fotografia: Revista Angel

Há algo fora do lugar nas aulas de Juliana Magati, e é de propósito. Num curso conhecido pela tradição, pela vestimenta e por um vocabulário que assusta, ela entra na sala com giz de cera, lápis de cor, canetinhas, cadernos de desenho, jogos de tabuleiro e referências da Disney. É o método que batizou de Direito Colorido, e pelo qual, diz, “sou conhecida muito mais por essa metodologia, do que pelo cargo de direção”. A tradição, defende, não precisa brigar com o lúdico. Mapas mentais, gincanas e exemplos de filmes infantis fixam a matéria melhor do que a repetição. A metodologia nasceu de um diagnóstico. “O Direito Colorido surgiu em meados de 2016, quando identifiquei que apenas transcrever conceitos na lousa ou slides não era mais suficiente.”

Por trás dele, uma crítica mais dura: “Os cursos de Direito não evoluíram na mesma velocidade que a sociedade. Ainda estamos apegados a conteúdos dos anos 90/2000.” O resultado aparece no que ela chama, provocando, de sexto ano. “Costumo brincar com os meus alunos que o mais difícil da graduação é o 6º ano, pois ele estará fora dos muros da faculdade, com um diploma na mão e sem saber o que fazer.” A conta não fecha: “A faculdade forma bacharéis em Direito, a aprovação no exame da OAB transforma ele em advogado, mas nenhum dos dois ensina como aplicar o conhecimento na prática.” Ninguém avisa o recém-formado, diz, “que ele vai precisar formar uma carteira de clientes, administrar gastos x recebimentos, lidar com a expectativa do cliente e com a realidade do Poder Judiciário”.

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Sobre o exame da OAB, é ainda mais direta. “Costumo dizer que o exame é 90% psicológico e 10% conhecimento.” A pressão sobre o examinado — “por ele, pelos familiares e pela sociedade” — é maior do que a exigência técnica, e o efeito é perverso: “alunos com muito conhecimento, mas pouco preparo psicológico, formam a maior parcela dos não aprovados”. Ela concorda que o exame não pretende reprovar, já que não é classificatório. O problema é outro: “a sua estrutura não mede o conhecimento prático-teórico do aluno, já que o exercício da advocacia está longe de ser apenas a resolução de questões objetivas”. A inquietação nasce de uma ideia precisa do que é dar aula.

“Não podemos mais ser meros passadores de conteúdo, mas sim educadores e transformadores.” Depois da pandemia, a aula expositiva já não basta: é preciso colocar o aluno “como protagonista da aula, mas sem que ele perceba”. Um bom professor “precisa estar aberto a ouvir o aluno, enxergar suas dificuldades, refletir sobre a situação e devolver uma solução que ele não teria pensado sozinho”. O que transforma o aluno não é o caso pronto do livro, mas “situações vividas pelo professor”. E há intenção na exigência com que conduz a turma: “Sou muito exigente com a formação dos discentes porque quero colocar no mercado profissionais melhores do que eu — é assim que tenho certeza de que cumpri meu papel.”

Dirigir um curso é lidar com o que ninguém imagina: carga horária, orçamento e regulamentos; e, do outro lado, “alunos às vezes insatisfeitos, problemas de comportamento, distúrbios e até mesmo ausência de ensino básico, como leitura”. “A sala de aula é onde esqueço dos problemas externos e por um período estarei focada em apenas ser uma excelente professora.” E aponta para o mercado do ensino sem meias palavras: “A cada semestre surgem mais propagandas prometendo de tudo ao candidato, mas raramente se mostra o que realmente importa: o conteúdo ministrado, o corpo docente real, a biblioteca e a estrutura.” O que mais a preocupa nos próximos dez anos não é a tecnologia.

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É a formação de base. “Os estudantes do ensino superior não estão acostumados a serem contrariados, pressionados e desafiados. Para eles basta pagar a mensalidade por 5 anos e ter um diploma.” E chegam sem saber “ter um relacionamento interpessoal”, com dificuldades de comunicação sem o uso da IA. Daí a aposta com que encerra: “A IA só funciona no Direito se tiver um bom condutor, e minha esperança é que os alunos de hoje sejam os condutores da IA, e não meros copiadores.” Para isso, o ensino precisa da coragem de perguntar o que parar de ensinar. “Fala-se muito sobre o que incluir na grade curricular, mas raramente discutimos o que precisa ser descartado.”

Continuamos, diz, “gastando horas treinando os alunos para memorizar diversos conceitos, artigos de lei e estrutura de peças, em vez de focar exclusivamente em raciocínio estratégico, negociação e ética prática”.

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