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Dignidade não se restitui: uma breve reflexão sobre família e ética

DR. JOÃO ALBERTO NALDONI

Advogado

Mineiro e estabelecido em São Paulo, Dr. Naldoni exerce atuação no Direito Trabalhista há mais de 5 décadas, uma das grandes fontes de conhecimento e experiência na área jurídica.

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Dr. João Alberto Naldoni, advogado trabalhista, autor do editorial na Revista Angel

Dr. João Alberto Naldoni | Fotografia: Revista Angel

Advogo há mais de cinquenta anos na área trabalhista. Aprendi nesse tempo que a ação judicial chega sempre tarde: o que se disputa no processo quase nunca foi o que originou o conflito. O começo está atrás, num compromisso não honrado, num limite que ninguém teve a firmeza de estabelecer. A ética não nasce nos tribunais nem nas decisões corporativas. Começa no ambiente doméstico, nas atitudes que ninguém está vendo nem premiando: no cumprimento de uma promessa feita a uma criança, na forma como se trata quem presta serviço dentro de casa, na divisão justa das tarefas, na coragem de assumir um erro pequeno em vez de atribuí-lo a outro. É no cotidiano desprovido de plateia que o caráter se consolida.

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Por isso desconfio da pedagogia feita só de palavras. O discurso orienta; o exemplo consolida. Os filhos observam os pais exatamente nos três momentos em que é mais difícil manter a linha: no conflito, quando se escolhe entre o diálogo e a agressividade; no dinheiro, quando a honestidade disputa espaço com a ganância; e na conveniência, quando a regra incomoda e pode ser burlada sem testemunhas. Há um princípio ainda mais exigente: fazer o correto mesmo quando isso custa. Ele se transmite quando os pais reconhecem as próprias falhas e arcam com o preço de repará-las; quando deixam o filho responder pelo dano que causou, em vez de livrá-lo da consequência; quando elogiam a integridade demonstrada na perda.

Dinheiro se ganha e se perde. Dignidade e respeito, uma vez perdidos, não se restituem. A chamada “lei de Gerson”, que prega levar vantagem em tudo, incute uma farsa na formação do indivíduo. Os litígios que acompanho não são domésticos, mas o mecanismo é o mesmo. Os conflitos familiares graves nascem da ausência de regras claras e do colapso da comunicação antes que fosse necessária. Diálogo não é falar: é escutar com disposição real de ceder. Afeto sem regra gera desorganização moral e ressentimento futuro. E intimidade nunca autorizou desrespeito nem abuso de poder. Da tradição maçônica trago o polimento da pedra bruta, a autoexigência como trabalho que não termina, e a convicção de que liderar, no lar ou na vida pública, é servir.

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Se eu tivesse de apontar um único valor a transmitir à geração seguinte, escolheria a responsabilidade, e com ela o comprometimento. Sem os dois, honestidade, justiça e empatia permanecem no campo das intenções. A liberdade deixa de ser apenas um direito no instante em que a minha escolha alcança a vida de outra pessoa. É exatamente aí que começa a formação de um cidadão.

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